A revolução silenciosa da saúde mental em Portugal: como a pandemia nos obrigou a falar do que sempre escondemos

A revolução silenciosa da saúde mental em Portugal: como a pandemia nos obrigou a falar do que sempre escondemos
Há um ano, falar de ansiedade ou depressão em Portugal era ainda um tabu disfarçado de fraqueza. Hoje, os consultórios dos psicólogos têm listas de espera que se estendem por meses, e as farmácias registam aumentos históricos na venda de ansiolíticos. A pandemia não trouxe apenas um vírus; trouxe uma epidemia paralela de sofrimento psicológico que está a redefinir a forma como os portugueses encaram a saúde mental.

Nos corredores do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, a psiquiatra Maria João Santos observa uma mudança geracional. "Antes da pandemia, os idosos vinham com queixas físicas que escondiam depressões profundas. Agora, os jovens entre os 20 e os 35 anos chegam sem medo de dizer: 'Doutora, não aguento mais'. É triste, mas é progresso." Os números confirmam: segundo o Instituto Nacional de Saúde, as consultas de psicologia aumentaram 47% desde 2020, e os pedidos de baixa por esgotamento profissional duplicaram.

Mas esta nova abertura tem um preço. O Serviço Nacional de Saúde tem apenas 400 psicólogos para 10 milhões de portugueses, uma proporção que deixa especialistas em alerta. "Temos uma geração inteira a aprender a pedir ajuda, mas o sistema não está preparado para responder", alerta o psicólogo clínico Rui Costa, que criou uma linha de apoio gratuita durante o confinamento e atendeu mais de 2.000 chamadas em três meses.

Nas empresas, a revolução é mais lenta mas igualmente significativa. A tecnológica Farfetch foi pioneira ao incluir terapia no seguro de saúde dos colaboradores em 2021. "No primeiro mês, tivemos 78 pedidos. Hoje, é o benefício mais valorizado", conta Ana Mendes, responsável de recursos humanos. Já nas PMEs, a realidade é diferente: apenas 12% oferecem algum tipo de apoio psicológico, segundo dados da CIP.

Nas escolas, o Ministério da Educação anunciou em setembro a contratação de 100 psicólogos, mas especialistas consideram a medida "insuficiente". "Temos adolescentes que passaram dois anos formativos em isolamento. As consequências vão durar uma década", prevê Sofia Martins, professora numa escola secundária do Porto, onde criou um grupo de apoio entre pares que já ajudou 120 alunos.

O digital tornou-se aliado inesperado. Aplicações como a Zenklub e a Psious, criadas por startups portuguesas, registaram crescimentos de 300% nos últimos dois anos. "A terapia online removeu barreiras geográficas e de estigma", explica Miguel Gonçalves, fundador da Zenklub, que já realizou mais de 50.000 sessões virtuais. Mas o modelo tem críticos: "A relação terapêutica perde profundidade num ecrã", contrapõe a psicanalista Inês Cardoso.

Nas redes sociais, influencers como a enfermeira Bárbara Dias, com 150.000 seguidores no Instagram, normalizam conversas sobre burnout e síndrome do impostor. "Recebo centenas de mensagens diárias de pessoas que nunca teriam coragem de marcar uma consulta", partilha. Este fenómeno tem um lado sombrio: a desinformação sobre medicamentos e diagnósticos caseiros que circula nas mesmas plataformas.

O que o futuro reserva? Os especialistas concordam num ponto: não há volta atrás. "A pandemia quebrou o silêncio em torno da saúde mental. Agora precisamos de infraestruturas que acompanhem esta nova consciência", defende o psiquiatra Daniel Sampaio. O Orçamento do Estado para 2023 prevê um aumento de 15% no financiamento da saúde mental, mas associações de doentes consideram o valor "claramente insuficiente".

Enquanto isso, nas ruas de Lisboa, um graffiti numa parede da Mouraria resume a mudança: "Não estás bem? Está tudo bem em não estar bem". A mensagem, pintada anonimamente durante o primeiro confinamento, tornou-se símbolo não oficial de uma geração que está a reescrever as regras do bem-estar emocional em Portugal. A revolução pode ser silenciosa, mas os seus ecos vão moldar o país nos próximos anos.

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