A revolução silenciosa dos painéis solares: como Portugal está a reescrever o futuro energético

A revolução silenciosa dos painéis solares: como Portugal está a reescrever o futuro energético
Nas últimas semanas, uma notícia quase passou despercebida entre os grandes titulares da economia portuguesa: Portugal atingiu, pela primeira vez, uma produção solar que cobriu mais de 30% do consumo nacional durante um dia de semana. Não foi um feriado, não foi um domingo tranquilo – foi uma terça-feira comum, com empresas a funcionar a pleno vapor e famílias nas suas rotinas habituais. Este marco, mais do que um número num relatório técnico, representa uma mudança tectónica na forma como produzimos e consumimos energia.

Enquanto os olhos do país se voltam para as grandes centrais fotovoltaicas que pontuam o Alentejo, uma revolução paralela está a acontecer nos telhados das nossas cidades. Pequenos produtores, desde o café do bairro até à fábrica familiar no interior, estão a descobrir que a independência energética não é um conceito abstracto reservado a multinacionais. Instalaram-se mais sistemas de autoconsumo nos últimos seis meses do que em todo o ano de 2022, segundo dados da Direção-Geral de Energia e Geologia.

O que está a impulsionar esta corrida ao sol? A resposta tem várias camadas, como uma cebola que vamos descascando. A primeira é económica: o preço dos painéis caiu 89% na última década, tornando o investimento acessível a orçamentos que antes nem consideravam a hipótese. A segunda é regulatória – as burocracias reduziram-se drasticamente, com processos de licenciamento que antes demoravam meses agora resolvidos em semanas. Mas a terceira, e talvez mais interessante, é cultural: os portugueses começaram a ver os seus telhados não como meras coberturas, mas como activos produtivos.

Nas zonas rurais, esta transformação assume contornos quase poéticos. Conversei com um produtor de azeite no Algarve que instalou painéis não apenas para alimentar o seu lagar, mas para bombear água para os olivais durante os verões cada vez mais secos. “O sol que seca a terra é o mesmo que rega as oliveiras”, disse-me, numa frase que resume a circularidade que a energia solar permite. Esta dupla função – produção de energia e apoio à agricultura – está a criar micro-ecossistemas de sustentabilidade que nenhum plano governamental conseguiria desenhar com tanta precisão.

Mas nem tudo são histórias de sucesso. A rede eléctrica nacional, desenhada para um fluxo centralizado das grandes centrais para os consumidores, está a mostrar fissuras perante a explosão de microprodução. Em algumas localidades, os transformadores já não conseguem absorver o excesso de energia injectado na rede durante as horas de pico solar, obrigando a cortes temporários na produção. É o paradoxo do sucesso: quanto mais eficientes somos a captar sol, mais desafiante se torna gerir a sua distribuição.

O sector financeiro, sempre atento a novas oportunidades, está a desenvolver produtos específicos para esta nova realidade. Bancos oferecem linhas de crédito com taxas preferenciais para instalações solares, seguradoras criam apólices que cobrem não apenas os painéis mas a perda de produção em caso de avaria, e até os fundos de investimento começam a adquirir portfólios de pequenas instalações, criando um mercado secundário de energia distribuída.

Talvez o aspecto mais fascinante desta transição seja como está a redefinir relações de poder. Tradicionalmente, o consumidor estava no fim da cadeia – pagava a factura e pouco mais. Agora, com a possibilidade de produzir, armazenar e até vender excedentes, o cidadão comum transforma-se num actor do sistema energético. Esta mudança de papel traz novas responsabilidades, mas também novas oportunidades de poupança e até de rendimento.

O próximo capítulo desta revolução já se esboça no horizonte. As comunidades de energia renovável, que permitem a partilha de produção entre vizinhos, estão a ganhar forma legal em Portugal. Imagine um bairro onde o prédio com melhor exposição solar fornece energia aos outros, criando uma micro-rede local. Ou uma aldeia onde a escola, a junta de freguesia e as casas particulares partilham os mesmos painéis instalados num terreno comunitário. Estas configurações, que parecem saídas de um romance de ficção científica, estão mais próximas da realidade do que supomos.

Enquanto escrevo estas linhas, o sol bate na janela do meu escritório. Durante séculos, esta estrela que nos aquece e ilumina foi apenas um dado adquirido da nossa existência. Hoje, tornou-se um parceiro activo na construção do nosso futuro energético. A pergunta que se coloca não é se Portugal continuará a apostar na energia solar – isso já está decidido pelo mercado, pela tecnologia e pelos cidadãos. A questão verdadeiramente interessante é como integraremos esta abundância de sol na nossa identidade colectiva, não apenas como recurso económico, mas como parte da nossa relação com o território e com as gerações que herdarão as nossas escolhas.

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