Seguros automóvel: o que as seguradoras não contam sobre os preços e as coberturas

Seguros automóvel: o que as seguradoras não contam sobre os preços e as coberturas
Os portugueses gastam, em média, mais de 300 euros por ano em seguros automóvel, mas poucos sabem realmente o que estão a pagar. Enquanto as seguradoras apresentam campanhas publicitárias com mascotes simpáticas e preços aparentemente baixos, a realidade esconde um labirinto de cláusulas, exclusões e estratégias de precificação que deixariam qualquer consumidor de cabelos em pé.

A primeira grande ilusão começa com o preço anunciado. Aquela oferta irresistível de 99 euros anuais raramente se aplica ao condutor comum. É uma isca para atrair clientes, mas depois surgem os "ajustes": idade, histórico de sinistros, local de residência, modelo do carro e até a profissão podem multiplicar o valor final por três ou quatro vezes. As seguradoras utilizam algoritmos complexos que analisam centenas de variáveis, muitas delas pouco transparentes para o consumidor.

Mas o verdadeiro problema não está apenas no preço. As coberturas oferecidas são, frequentemente, um quebra-cabeças jurídico. A maioria dos portugueses assina apólices sem ler as letras pequenas, onde se escondem as exclusões mais surpreendentes. Danos causados por fenómenos naturais "atípicos", roubo sem vestígios de arrombamento, ou assistência em viagem com limitações geográficas são apenas alguns exemplos. Muitas seguradoras aproveitam-se do desconhecimento geral para oferecer produtos com coberturas básicas que deixam os condutores desprotegidos nas situações mais críticas.

A revolução tecnológica está a mudar o jogo, mas nem sempre a favor do consumidor. As caixas pretas instaladas nos veículos prometem descontos para condutores prudentes, mas recolhem dados sobre hábitos de condução, localizações e até horários de utilização do carro. Esta informação vale ouro para as seguradoras, que a utilizam não apenas para personalizar prémios, mas também para identificar padrões de risco. O grande debate ético: até que ponto estamos a trocar privacidade por poupança?

O mercado português tem uma particularidade preocupante: a concentração. Poucas seguradoras dominam grande parte do negócio, o que limita a concorrência real. Enquanto noutros países europeus surgem seguradoras digitais com modelos disruptivos, em Portugal as tradicionais mantêm um forte controlo sobre os canais de distribuição. As comparações online ajudam, mas muitas vezes escondem comissões elevadas pagas aos intermediários, que acabam por inflacionar os preços finais.

A fiscalização é outro ponto fraco do sistema. A ASF (Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões) tem poderes limitados para intervir nas práticas comerciais das seguradoras. As queixas dos consumidores aumentam ano após ano, mas as sanções são raras e pouco dissuasoras. Enquanto isso, as seguradoras continuam a lucrar milhões, aproveitando-se de um mercado onde a informação não circula de forma transparente.

Para o consumidor comum, a solução passa por uma mudança de mentalidade. Em vez de escolher o seguro mais barato, deve procurar a cobertura mais adequada. Ler a apólice antes de assinar, comparar não apenas preços mas também condições, e questionar o mediador sobre pontos obscuros são passos essenciais. As seguradoras contam com a preguiça dos portugueses para vender produtos inadequados - cabe a cada um quebrar este ciclo.

O futuro dos seguros automóvel em Portugal dependerá da capacidade dos consumidores se informarem e exigirem transparência. As seguradoras que resistirem a esta mudança arriscam-se a ficar para trás num mercado cada vez mais digital e exigente. A verdadeira proteção começa não no momento do acidente, mas na escolha consciente da apólice que nos acompanhará na estrada.

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