Os portugueses pagam alguns dos seguros automóvel mais caros da Europa, mas poucos entendem verdadeiramente o que está por trás destes valores. A verdade é que as tabelas de preços escondem segredos que as seguradoras preferem manter longe dos holofotes.
Nos últimos meses, uma análise detalhada aos dados da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões revelou padrões preocupantes. Enquanto os custos dos sinistros têm vindo a diminuir, os prémios dos seguros continuam a subir de forma consistente. Esta discrepância levanta questões sérias sobre a transparência do setor.
O fator geográfico continua a ser um dos elementos mais controversos na determinação dos preços. Um condutor no Porto pode pagar até 40% mais do que alguém com exatamente o mesmo perfil em Braga, apenas devido ao código postal. Esta prática, embora legal, carece de justificação técnica clara perante os consumidores.
A digitalização trouxe novas oportunidades, mas também novas armadilhas. Muitas seguradoras oferecem descontos aparentemente generosos para quem aceita instalar dispositivos de telemetria no veículo. O que não explicam é que estes dispositivos recolhem dados muito além dos hábitos de condução, criando perfis comportamentais detalhados que depois usam para recalcular prémios.
A guerra silenciosa entre as seguradoras e as oficinas de reparação é outro capítulo obscuro. Muitas companhias pressionam as oficinas para usar peças de qualidade inferior ou recondicionadas, comprometendo a segurança dos veículos em troca de margens de lucro mais elevadas. Os proprietários raramente são informados sobre estas substituições.
Os jovens condutores enfrentam talvez a situação mais injusta. Apesar de sistemas avançados de assistência à condução e de a sinistralidade jovem ter caído significativamente nos últimos cinco anos, os prémios mantêm-se proibitivamente altos. A justificação das seguradoras baseia-se em estatísticas desatualizadas que não refletem a realidade atual.
A revolução elétrica trouxe novos desafios. Os veículos elétricos, apesar de terem menos peças móveis e serem geralmente mais seguros, enfrentam prémios surpreendentemente elevados. As seguradoras argumentam com os custos de reparação das baterias e sistemas eletrónicos, mas especialistas questionam se estes valores não estão inflacionados.
A concorrência no setor é mais aparente do que real. Embora existam dezenas de seguradoras no mercado, muitas partilham os mesmos re-seguradores e modelos de risco, resultando em preços surpreendentemente similares para perfis idênticos. Esta uniformização de preços merece a atenção das autoridades de concorrência.
As cláusulas escondidas nas letras pequenas dos contratos continuam a ser uma prática comum. Desde limites não declarados em assistência em viagem até exclusões de cobertura em determinadas estradas, os consumidores frequentemente descobrem as limitações do seu seguro apenas quando mais precisam dele.
A boa notícia é que a transparência está a melhorar lentamente. Novas regulamentações europeias e uma maior consciencialização dos consumidores estão a forçar as seguradoras a serem mais claras nas suas práticas. No entanto, o caminho até um mercado verdadeiramente justo ainda é longo.
Os especialistas recomendam que os portugueses não se limitem a renovar automaticamente os seus seguros. A comparação minuciosa entre diferentes seguradoras, a leitura cuidadosa das condições gerais e a negociação directa podem resultar em poupanças significativas. A chave está em tratar o seguro automóvel não como uma despesa fixa, mas como um servizo negociável.
O futuro trará certamente mais mudanças. A inteligência artificial promete personalizar ainda mais os prémios, enquanto a partilha de veículos e a condução autónoma desafiarão os modelos tradicionais de seguro. Os consumidores que se mantiverem informados e exigentes serão os maiores beneficiários desta evolução.
Seguro automóvel: o que as seguradoras não contam sobre os preços em Portugal
