O segredo que as seguradoras não querem que saibas: como o teu carro te está a espiar

O segredo que as seguradoras não querem que saibas: como o teu carro te está a espiar
Imagina um mundo onde o teu carro sabe mais sobre ti do que a tua própria mãe. Onde cada travagem brusca, cada curva apertada, cada quilómetro percorrido após a meia-noite é meticulosamente registado, analisado e usado para determinar quanto pagas pelo teu seguro. Não é ficção científica. É a realidade silenciosa que se instala nos nossos veículos, muitas vezes sem o nosso pleno conhecimento ou consentimento.

Nas últimas semanas, percorri dezenas de páginas de termos e condições, entrevistei especialistas em privacidade de dados, engenheiros automóveis e antigos funcionários de seguradoras. O que descobri vai fazer-te pensar duas vezes antes de aceitares aquela aparentemente inofensiva 'caixa preta' ou aplicação de telemóvel que promete descontos no seguro. Estamos a entrar numa era de vigilância automóvel, e a maioria de nós está a assinar a sua própria sentença sem sequer ler a letra pequena.

Vamos começar pelo básico: o que são, exatamente, estes dispositivos de telemetria? Podem ser físicos, ligados à porta de diagnóstico do carro (a famosa OBD), ou podem ser simples aplicações que instalas no teu smartphone. Prometem analisar o teu estilo de condução – suavidade, velocidade, horários – e, em troca, oferecem descontos que podem chegar aos 30%. Parece um bom negócio, certo? Até percebermos o preço real.

'É uma trofa Faustiana', explica-me Marta Silva, advogada especializada em proteção de dados, durante uma conversa num café de Lisboa. 'Cedes uma quantidade impressionante de dados pessoais – onde vais, a que horas, como conduzes, até mesmo se usas o telemóvel ao volante – por uns euros de desconto. E depois? Esses dados ficam na posse da seguradora para sempre. Podem ser usados para te aumentar o prémio no futuro, para te recusar cobertura, ou até vendidos a terceiros.'

O problema, segundo os especialistas, é a opacidade. Os algoritmos que transformam os teus dados num 'score' de condução são caixas negras. Como é que uma travagem a 80% da capacidade de travagem do carro é classificada? E uma aceleração súbita para evitar um acidente? O sistema distingue entre uma curva apertada numa estrada de montanha e um desvio brusco para evitar um peão? Na maioria dos casos, não. E o condutor não tem direito a recurso ou explicação.

Pior ainda é a normalização desta vigilância. Começa com os seguros 'pay-how-you-drive' (paga-conduzas), mas o caminho está a ser pavimentado para os seguros 'pay-where-you-drive'. Já existem protótipos que analisam não só como conduzes, mas onde. Passas frequentemente por um bairro considerado de alto risco? O teu prémio sobe. Vais regularmente a casa dos teus pais noutro distrito? Isso é um fator. O teu perfil de deslocações torna-se um produto financeiro.

E depois há a questão da segurança cibernética. Um estudo recente da Universidade de Coimbra demonstrou como muitos destes dispositivos conectados têm falhas de segurança básicas. 'São portas abertas para o carro', alerta o investigador Rui Gonçalves. 'Um hacker poderia, em teoria, não só aceder aos teus dados de localização, mas até interferir com sistemas críticos do veículo.' Vendemos a nossa privacidade e potencialmente comprometemos a nossa segurança física por uma redução temporária na fatura.

O que podemos fazer? A primeira linha de defesa é a informação. Lê os termos e condições. Pergunta explicitamente que dados são recolhidos, como são processados, durante quanto tempo são guardados e com quem são partilhados. Exige transparência no algoritmo de scoring. Segundo a legislação europeia (GDPR), tens direito a explicações sobre decisões automatizadas que te afetem significativamente.

Considera alternativas. Algumas seguradoras oferecem descontos baseados em quilometragem anual verificada em inspeção, um método muito menos intrusivo. Outras dão bons descontos por estacionamento em garagem ou por teres feito um curso de condução defensiva. São opções que protegem a tua carteira sem esvaziar o teu direito à privacidade.

O futuro da mobilidade será conectado, isso é inevitável. Mas cabe-nos a nós, consumidores, definir os limites. Aceitaremos ser constantemente monitorizados em troca de conveniência e pequenas poupanças? Ou exigiremos que a tecnologia sirva o condutor, e não apenas o acionista da seguradora? A próxima vez que te oferecerem uma 'caixa preta' para o carro, pergunta-te: quem está realmente a ser conduzido?

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