Se passarmos horas a navegar nos sites de imobiliário mais populares em Portugal, desde o decoproteste.pt ao idealista.pt, do casasapo.pt ao homify.pt, encontramos uma realidade cuidadosamente curada. Fotografias com ângulos perfeitos, descrições que prometem paraísos domésticos, filtros que suavizam até as imperfeições mais óbvias. Mas o que acontece quando desligamos o ecrã e conversamos com quem realmente vive nestes espaços? Aí descobrimos uma história diferente, uma que os algoritmos não conseguem capturar.
Durante meses, percorri o país de norte a sul, visitando casas anunciadas nestas plataformas e conversando com os seus habitantes. Encontrei uma desconexão fascinante entre o que é vendido online e o que as pessoas realmente valorizam. Enquanto os sites destacam cozinhas de designer e casas de banho com azulejos hidráulicos, os residentes falavam-me de coisas mais subtis: a forma como a luz da manhã entra pela janela da cozinha, o sítio perfeito para ler um livro à tarde, o canto onde as crianças brincam sem serem vistas.
Esta investigação revelou três tendências que quase nunca aparecem nas descrições dos imóveis. Primeiro, o regresso dos espaços multifuncionais. As salas já não são apenas para receber visitas – transformam-se em escritórios durante o dia, em salas de cinema à noite, em ginásios ao fim de semana. As pessoas adaptam cada centímetro às suas vidas em constante mudança, algo que as fotografias estáticas raramente mostram.
Segundo, descobri uma relação complexa com a tecnologia doméstica. Enquanto os anúncios prometem casas 'inteligentes' com todos os gadgets possíveis, muitos residentes confessaram-me que desligaram metade dos dispositivos. Preferem termóstatos manuais a aplicações complicadas, lâmpadas tradicionais a sistemas de iluminação controlados por voz. A simplicidade tornou-se um luxo inesperado.
Terceiro, e talvez o mais interessante, é o fenómeno que chamei de 'nicho territorial'. As pessoas não compram apenas uma casa – apropriam-se de espaços específicos à sua volta. Conheci uma família no Porto que transformou o pequeno quintal das traseiras num minhocário comunitário, outra em Lisboa que criou uma biblioteca de troca de livros na entrada do prédio. Estas micro-comunidades não aparecem nos anúncios, mas são parte vital da experiência de viver num lugar.
O caso mais revelador veio de uma visita a um bungalow anunciado no onossobungalow.pt. As fotografias mostravam um espaço idílico junto à natureza, mas a realidade era mais complexa. Os proprietários tinham desenvolvido um sistema completo de reaproveitamento de água da chuva, criado compostagem comunitária com os vizinhos, e até estabelecido rotas de partilha de produtos da horta. Nada disto constava no anúncio, mas era precisamente o que tornava aquele lugar especial para quem lá vivia.
Esta desconexão entre representação digital e realidade física levanta questões importantes. Estaremos a criar expectativas irreais sobre o que significa 'viver bem'? As plataformas como o casa.jardim.pt ou o homify.pt, ao focarem-se no estético, estarão a negligenciar o funcional? E mais importante: como podemos equilibrar esta equação?
A resposta, descobri, está na voz dos próprios residentes. Quando lhes dei espaço para descreverem as suas casas sem as restrições dos campos de preenchimento dos sites, surgiram histórias ricas e matizadas. Falaram de como uma parede mal pintada se tornou o local perfeito para as marcas de crescimento dos filhos, de como um soalho rangente lhes diz exactamente onde estão os outros membros da família, de como a vista imperfeita da janela do quarto lhes recorda diariamente a beleza do acaso.
Talvez o futuro dos sites imobiliários não esteja em mais fotografias profissionais ou descrições mais elaboradas, mas em criar espaço para estas narrativas autênticas. Imagino plataformas onde os futuros compradores possam não só ver as medidas dos quartos, mas também ler sobre como a luz muda ao longo do dia, ou como o cheiro da padaria da esquina entra pela janela às sextas-feiras.
Enquanto isso, a minha investigação continua. A próxima parada são os apartamentos anunciados como 'prontos a habitar' – expressão que, descobri, significa coisas radicalmente diferentes para quem vende e para quem compra. Mas isso é matéria para outra reportagem. Por agora, fica o convite: da próxima vez que navegar num site de imobiliário, pergunte-se não apenas o que vê, mas principalmente o que não vê. Aí reside a verdadeira história de uma casa.
O que os portugueses realmente querem nas suas casas: tendências que os sites de imobiliário não mostram