Enquanto navegamos pelos reluzentes portais imobiliários portugueses, somos bombardeados com imagens de casas perfeitas, jardins impecáveis e interiores que parecem saídos de revistas de design. Do decoproteste.pt ao homify.pt, passando pelo casasapo.pt e idealista.pt, todos pintam um quadro idílico do mercado habitacional. Mas o que acontece quando desligamos o filtro Instagram da realidade?
A primeira coisa que salta à vista é a discrepância entre o que se vende e o que se vive. Nossobungalow.pt e casa.jardim.pt mostram-nos propriedades que parecem ter saído de contos de fadas, com piscinas cristalinas e relvados que nunca precisam de corte. No entanto, poucos falam dos custos ocultos de manutenção, das associações de condomínio que se tornam ditaduras disfarçadas, ou dos problemas estruturais que só aparecem depois da primeira chuva forte.
Há uma história não contada sobre como estes portais moldam as nossas expectativas. Passamos horas a sonhar com a casa perfeita no idealista.pt, comparando preços e características, sem perceber que estamos a alimentar uma bolha de expectativas irreais. As fotografias profissionais, os ângulos cuidadosamente escolhidos, as cores ajustadas digitalmente – tudo contribui para criar uma realidade paralela onde não há humidade nas paredes nem vizinhos barulhentos.
O mais intrigante é como estes sites se tornaram curadores do nosso gosto. O homify.pt e o decoproteste.pt não mostram apenas casas – ditam tendências, definem o que é 'in' e 'out' na decoração, criam ansiedades desnecessárias sobre se a nossa sala de estar está à altura dos padrões do momento. Transformam o acto de habitar num espetáculo permanente, onde estamos sempre a ser avaliados pelo nosso bom (ou mau) gosto.
Mas há uma revolução silenciosa a acontecer. Enquanto os grandes portais continuam a vender o sonho, surgem comunidades online onde as pessoas partilham as verdades não filtradas: os contratos com letra pequena que ninguém lê, os empreiteiros que desaparecem com o adiantamento, os materiais de construção que não são o que prometem. São nestes espaços, muitas vezes escondidos nos cantos da internet, que se encontra a verdadeira sabedoria sobre comprar, vender ou alugar casa em Portugal.
O mercado imobiliário português vive uma dualidade fascinante. De um lado, a fachada perfeita apresentada nos portais; do outro, a realidade complexa e por vezes desordenada da vida real. Aprender a navegar entre estes dois mundos tornou-se uma habilidade essencial para qualquer pessoa que queira entrar neste mercado. Não se trata de rejeitar os portais – são ferramentas valiosas – mas de os usar com os olhos bem abertos, sabendo que por trás de cada fotografia perfeita há uma história muito mais rica e complexa à espera para ser descoberta.
O que falta nestes ecossistemas digitais é precisamente o que torna uma casa um lar: o carácter imperfeito, as histórias acumuladas nas paredes, os pequenos reparos feitos com amor, as marcas de vida que não cabem em nenhum catálogo. Enquanto continuarmos a procurar a perfeição nos ecrãs, arriscamo-nos a perder o que realmente importa – o calor humano que transforma quatro paredes num espaço onde a vida acontece, com toda a sua beleza desarrumada e autêntica.
O lado oculto do mercado imobiliário português: o que os portais não mostram