O lado oculto da decoração em Portugal: das tendências às trafulhices

O lado oculto da decoração em Portugal: das tendências às trafulhices
Há um mundo paralelo que se esconde por detrás das fotografias imaculadas dos interiores que povoam as revistas e os sites de decoração. Enquanto o decoproteste.pt denuncia práticas comerciais duvidosas no setor, plataformas como o homify.pt apresentam-nos ambientes de sonho, quase inatingíveis. A verdade é que a decoração em Portugal vive uma dualidade fascinante: por um lado, a procura de beleza e conforto; por outro, os perigos escondidos nos cantos mais escuros do mercado.

Nas últimas semanas, percorri dezenas de anúncios no idealista.pt e casasapo.pt, e uma coisa salta à vista: as fotografias nem sempre correspondem à realidade. Há apartamentos que parecem palácios nas imagens, mas que, em visita presencial, revelam fissuras nas paredes e humidades disfarçadas com ângulos estratégicos. Esta arte do disfarce tornou-se uma especialidade para alguns agentes imobiliários, que transformam deficiências em 'características' com um toque de Photoshop e muita imaginação.

O caso dos bungalows é particularmente revelador. Sites como onossobungalow.pt prometem férias idílicas em alojamentos rústicos, mas quantas vezes essas promessas se desfazem à chegada? Encontrei histórias de famílias que reservaram 'paraísos' junto à natureza apenas para descobrir que o 'ar puro' vinha acompanhado do cheiro a esgotos de uma fossa mal dimensionada. A romantização do campo tem um preço, e muitas vezes paga-se com o conforto básico.

No universo da casa e jardim, explorado em sites como casa.jardim.pt, há todo um ecossistema de produtos milagrosos que prometem transformar qualquer quintal num Éden. Mas a verdade é que muitos desses produtos são ineficazes ou, pior, prejudiciais ao ambiente. Os 'adubos naturais' que contêm químicos não declarados, as 'sementes biológicas' que nunca germinam - o mercado do jardim está repleto de armadilhas para o consumidor desprevenido.

O que mais me surpreendeu nesta investigação foi a criatividade na elaboração de descrições enganosas. Um apartamento 'cheio de luz' pode significar que não tem cortinas e o sol incide diretamente na sala às três da tarde. Um 'espaço acolhedor' é muitas vezes um eufemismo para 'minúsculo'. E o famoso 'potencial'? Essa palavra mágica que justifica qualquer defeito, desde a cozinha dos anos 70 até à casa de banho que mais parece uma cabine telefónica.

Há, no entanto, uma luz no fim do túnel. O aumento de plataformas de denúncia e a partilha de experiências entre consumidores está a mudar o jogo. Cada vez mais portugueses chegam às visitas preparados, com listas de verificação e perguntas incómodas que deixam os vendedores menos honestos em apuros. A era da informação está a empoderar os compradores e inquilinos, que já não aceitam as velhas artimanhas do mercado.

O segredo, descobri, está no equilíbrio entre o sonho e a realidade. Podemos e devemos aspirar a casas bonitas e funcionais, mas sem cair nas armadilhas do marketing agressivo. A verdadeira decoração começa não nas lojas de design, mas na capacidade de ver para além das superfícies brilhantes. Começa na coragem de levantar o tapete para ver o que está por baixo, de abrir os armários em vez de apenas admirar as portas, de questionar em vez de aceitar.

Portugal tem uma relação complexa com as suas casas. Somos um povo que valoriza o lar, mas que muitas vezes compra com o coração em vez da cabeça. Esta investigação mostrou-me que, por detrás de cada transação imobiliária ou projeto de decoração, há histórias humanas - de esperança, de desilusão, de aprendizagem. E talvez seja essa a verdadeira beleza do mercado: não nas casas perfeitas das fotografias, mas nas imperfeitas onde realmente vivemos.

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