O som esquecido: como o ruído do dia a dia está a roubar-nos a audição sem darmos conta

O som esquecido: como o ruído do dia a dia está a roubar-nos a audição sem darmos conta
Há um ladrão silencioso a operar nas nossas cidades, casas e até nos nossos momentos de lazer. Não usa capa nem máscara, mas rouba-nos algo precioso: a capacidade de ouvir o mundo com clareza. Este ladrão chama-se poluição sonora, e está a causar danos auditivos irreversíveis a uma geração inteira, muitas vezes antes dos 40 anos.

Caminhe pelas ruas de Lisboa ou Porto numa manhã qualquer. O trânsito ruge, as obras martelam, os cafés expelem música alta pelas portas abertas. Somos uma sociedade que normalizou o ruído constante, mas poucos param para pensar no preço que os nossos ouvidos estão a pagar. Segundo especialistas em saúde auditiva, a exposição prolongada a sons acima de 85 decibéis – equivalente ao ruído de um aspirador – já pode causar danos permanentes.

O problema é que os danos auditivos raramente chegam de repente. Não é como partir um braço, onde a dor é imediata e óbvia. A perda auditiva relacionada com o ruído acumula-se gota a gota, dia após dia, até que um belo dia percebemos que já não ouvimos os pássaros como antes, ou que pedimos constantemente às pessoas para repetirem o que disseram. É um processo tão gradual que muitas pessoas só se dão conta quando o prejuízo já é significativo.

E aqui surge uma ironia cruel: enquanto nos preocupamos obsessivamente com a qualidade do som dos nossos fones e sistemas de som caseiros, esquecemo-nos de proteger o próprio instrumento que nos permite apreciar essa qualidade – os nossos ouvidos. Passamos horas a pesquisar as melhores colunas Bluetooth, os fones com melhor isolamento, os sistemas de home cinema mais imersivos, mas quantos de nós investem cinco minutos a aprender sobre proteção auditiva?

Os jovens são particularmente vulneráveis. Um estudo recente revelou que mais de 60% dos portugueses entre os 18 e os 35 anos já apresentam algum grau de perda auditiva, muito acima do que seria expectável para a sua idade. A culpa? Horas diárias de fones com volume excessivo, concertos sem proteção adequada, ambientes de trabalho ruidosos sem medidas de segurança. Criámos uma cultura do som alto e estamos a colher as consequências.

Mas há esperança. A mesma tecnologia que nos colocou nesta situação pode ajudar a tirar-nos dela. Aplicações para smartphone que medem os decibéis ambientais, fones com limitadores de volume automáticos, protetores auditivos personalizados que filtram os ruídos perigosos enquanto permitem a conversa normal – as ferramentas existem. O que falta é consciencialização.

O verdadeiro desafio não é técnico, mas cultural. Precisamos de repensar a nossa relação com o som, de deixar de associar volume alto a diversão ou produtividade. Um concerto pode ser emocionante mesmo com protetores auditivos. Um ambiente de trabalho pode ser eficiente sem o ruído constante de máquinas ou conversas em volume elevado.

Algumas cidades europeias já estão a tomar medidas interessantes. Em Barcelona, há zonas de 'silêncio urbano' onde o ruído é estritamente controlado. Em Viena, os transportes públicos têm avisos sonoros quando o volume interno atinge níveis potencialmente prejudiciais. Em Portugal, ainda estamos a dar os primeiros passos, mas a conversa já começou.

O que está em jogo vai muito além da capacidade de ouvir bem. Estudos mostram que a perda auditiva não tratada está associada a maior risco de isolamento social, depressão e até declínio cognitivo. Quando deixamos de ouvir bem, tendemos a afastar-nos das conversas, das atividades sociais, da vida em comunidade. É um caminho perigoso que começa com um simples zumbido após um concerto e pode terminar numa solidão não desejada.

A solução começa em cada um de nós. Na próxima vez que colocar os fones, pense no volume. Na próxima ida a um concerto, leve protetores auditivos. No trabalho, exija condições sonoras adequadas. E se notar que está com dificuldade em ouvir em certas situações, não adie – procure um especialista. A audição que perde hoje não recupera amanhã.

O som do mundo é demasiado precioso para o perdermos por descuido. Desde o riso de uma criança ao canto dos pássaros na primavera, desde a melodia favorita ao sussurro de quem amamos – tudo isso merece ser preservado. E preservar começa por proteger. O silêncio, afinal, não é a ausência de som, mas a possibilidade de escolher quais os sons que queremos ouvir, e por quanto tempo.

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