O zumbido constante que invade os ouvidos ao final do dia não é apenas cansaço. É o preço que pagamos por vivermos num mundo cada vez mais barulhento. Nas ruas das cidades portuguesas, o trânsito, as obras e a agitação constante criam uma sinfonia caótica que, dia após dia, vai minando a nossa capacidade de ouvir.
A perda auditiva não acontece de um momento para o outro. É um processo lento e insidioso, como a erosão das falésias pelo mar. Começa com pequenos sinais: pedir para repetir frases, aumentar o volume da televisão, sentir dificuldade em acompanhar conversas em ambientes ruidosos. São detalhes que muitos atribuem ao cansaço ou à distração, mas que escondem uma realidade mais preocupante.
O que poucos sabem é que a saúde auditiva está intimamente ligada ao bem-estar geral. Estudos recentes mostram que a perda auditiva não tratada pode acelerar o declínio cognitivo e aumentar o risco de depressão. O isolamento social que muitas vezes acompanha as dificuldades auditivas cria um ciclo vicioso: quanto menos ouvimos, menos participamos; quanto menos participamos, mais nos isolamos.
A tecnologia trouxe soluções surpreendentes. Os aparelhos auditivos modernos são pequenas maravilhas da engenharia, capazes de se conectarem a smartphones e adaptarem-se automaticamente a diferentes ambientes sonoros. Mas ainda existe um estigma social que afasta muitas pessoas destas soluções. A ideia de que aparelhos auditivos são apenas para idosos persiste, ignorando que cada vez mais jovens precisam de apoio auditivo.
A prevenção continua a ser a melhor arma. Proteger os ouvidos em concertos, usar proteção adequada em ambientes de trabalho ruidosos e fazer pausas regulares do uso de auriculares são hábitos simples que podem fazer a diferença. A regra dos 60/60 – ouvir a 60% do volume máximo durante não mais de 60 minutos por dia – deveria ser ensinada nas escolas como matéria obrigatória.
O diagnóstico precoce é crucial. Testes auditivos regulares deveriam fazer parte dos check-ups de saúde de rotina, tal como a medição da tensão arterial ou os exames oftalmológicos. Muitas clínicas em Portugal já oferecem rastreios gratuitos, mas a população ainda não tem consciência da importância destes exames.
A alimentação também desempenha um papel surpreendente na saúde auditiva. Nutrientes como o potássio, o ácido fólico e o zinco ajudam a manter a saúde dos ouvidos. Peixes ricos em ómega-3, nozes e vegetais de folha verde são aliados naturais da audição.
O mais intrigante é como o cérebro se adapta à perda auditiva. Através de um fenómeno chamado plasticidade neural, o cérebro reorganiza-se para compensar a falta de estímulos sonoros. Esta adaptação explica por que muitas pessoas só percebem que têm problemas auditivos quando a situação já está avançada – o cérebro estava a trabalhar horas extras para mascarar o problema.
As consequências sociais são profundas. Reuniões familiares tornam-se desafios, conversas em restaurantes transformam-se em exercícios de leitura labial e o simples acto de atender o telefone pode causar ansiedade. Esta realidade afecta não apenas quem sofre de perda auditiva, mas todos à sua volta.
A boa notícia é que nunca foi tão fácil cuidar da saúde auditiva. Desde apps que medem os níveis de ruído ambiental até consultas online com especialistas, a tecnologia está a democratizar o acesso aos cuidados auditivos. O importante é perder o medo de falar sobre o assunto e procurar ajuda quando os primeiros sinais aparecem.
O som do silêncio não precisa de ser uma sentença. Pode ser um alerta, um convite a cuidarmos melhor de um sentido que muitas vezes damos como garantido. Afinal, a capacidade de ouvir não é apenas sobre sons – é sobre conexão, sobre partilha, sobre vida.
O som do silêncio: como a perda auditiva silenciosa está a transformar as nossas vidas
