O segredo sujo dos créditos rápidos: como as fintechs estão a transformar a dívida em ouro digital

O segredo sujo dos créditos rápidos: como as fintechs estão a transformar a dívida em ouro digital
Há uma revolução silenciosa a acontecer nas sombras do sistema financeiro português. Enquanto os bancos tradicionais apertam o cerco à concessão de crédito, um novo ecossistema de empresas fintech está a crescer a um ritmo vertiginoso, prometendo dinheiro rápido, sem burocracias e com aprovação em minutos. Mas qual é o preço real desta conveniência digital?

Nas últimas semanas, percorri os escritórios discretos de três das maiores plataformas de crédito rápido em Portugal. O que encontrei não foi a inovação disruptiva que os comunicados de imprensa prometem, mas sim um modelo de negócio assente na vulnerabilidade humana. As taxas de juro, quando convertidas para taxas anuais efetivas globais (TAEG), chegam frequentemente aos três dígitos - algo que seria impensável num empréstimo bancário tradicional.

"É o Uber da banca", brincou um gestor de produto durante um almoço num restaurante caro de Lisboa. A analogia é reveladora: tal como a gigante do transporte transformou motoristas em contratados precários, estas plataformas estão a transformar a necessidade em commodity. Os algoritmos não avaliam capacidade de pagamento, mas sim padrões de comportamento digital - quantas vezes visita sites de jogos online, que tipo de compras faz no e-commerce, até mesmo a sua atividade nas redes sociais.

O verdadeiro negócio, contudo, não está nos empréstimos em si. A mina de ouro está na revenda das dívidas. Quando um cliente falha o pagamento, a sua dívida é agrupada com centenas de outras e vendida a fundos de investimento especializados em recuperação de crédito malparado. Estes fundos pagam cêntimos por cada euro de dívida, depois contratam empresas de cobrança agressiva e lucram com a diferença. É um ciclo perfeito: as fintechs ganham com as taxas altas, os fundos ganham com a desesperança.

O mais perturbador é a sofisticação do marketing. Anúncios cuidadosamente segmentados aparecem nas timelines de utilizadores que pesquisaram por "dinheiro urgente" ou "contas para pagar". Os influencers financeiros, muitos deles pagos pelas próprias plataformas, vendem a ideia de que estes créditos são ferramentas de empoderamento financeiro. A linguagem é sempre positiva: "solução rápida", "oportunidade", "flexibilidade". Nunca se fala em armadilha.

Nos bastidores, encontrei antigos funcionários que pediram anonimato por medo de represálias. Um deles, que trabalhou na área de risco de uma destas empresas, confessou: "Sabíamos que 40% dos nossos clientes iriam entrar em incumprimento. Mas o modelo era lucrativo mesmo assim. O importante era aprovar o máximo possível no primeiro mês."

Enquanto isso, o Banco de Portugal mantém uma postura cautelosa. As regulações existem, mas a velocidade da inovação tecnológica supera a capacidade de fiscalização. As empresas argumentam que oferecem um serviço necessário num mercado onde os bancos falharam. E têm razão, em parte. Para muitos portugueses excluídos do sistema tradicional, estas plataformas são a única alternativa em momentos de crise.

A questão que fica no ar é ética, não técnica. Estamos a criar uma geração de endividados digitais? A facilidade do processo - alguns cliques no telemóvel - remove a barreira psicológica que existia quando se tinha de enfrentar um gestor de banco. O dinheiro aparece na conta quase por magia, mas as consequências são bem reais.

Nos próximos meses, este mercado promete expandir-se ainda mais. Novas startups estão a entrar, algumas com capital de risco internacional. A competição deveria baixar as taxas, mas o que tenho observado é o oposto: à medida que cresce o volume, aumentam também os casos de sobre-endividamento.

A solução não passa necessariamente por proibir estes serviços, mas por educar e regular de forma inteligente. Transparência total nas condições, limites máximos realistas de TAEG, e - acima de tudo - mecanismos que previnam o ciclo vicioso do empréstimo para pagar empréstimo.

Enquanto escrevo estas linhas, recebo mais uma notificação no telemóvel: "Precisa de 500€? Aprovação em 5 minutos." A tentação está a um toque de distância. O desafio, como sociedade, é garantir que a tecnologia financeira sirva as pessoas, não se alimente delas.

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