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O futuro da conectividade: como as redes privadas 5G estão a transformar as empresas portuguesas

Enquanto os consumidores ainda discutem a cobertura do 5G nos seus telemóveis, uma revolução silenciosa está a acontecer nos bastidores da indústria portuguesa. Empresas como a Navigator, a EDP e até pequenas vinícolas do Alentejo estão a implementar redes privadas 5G que prometem transformar radicalmente a sua produtividade e segurança. Estas redes, operadas diretamente pelas empresas em vez dos operadores tradicionais, oferecem latência ultrabaixa, segurança máxima e controlo total sobre os dados – uma combinação que está a redefinir o que significa estar conectado no século XXI.

Na fábrica da Autoeuropa em Palmela, os robots já não estão ligados por cabos labirínticos. Em vez disso, comunicam através de uma rede 5G privada que permite reposicionar linhas de produção em horas em vez de semanas. "É como ter Wi-Fi industrial, mas com a fiabilidade da fibra ótica e a flexibilidade do wireless", explica um engenheiro que prefere manter o anonimato. Os sensores em cada máquina enviam dados em tempo real para sistemas de inteligência artificial que previnem falhas antes de acontecerem, reduzindo o tempo de inatividade em 40%.

Mas não são apenas as grandes multinacionais a beneficiar. Na região do Douro, uma cooperativa de viticultores implementou uma rede 5G privada que cobre 50 hectares de vinha. Sensores medem a humidade do solo, a maturação das uvas e até detetam pragas antes que sejam visíveis ao olho humano. "Recebo alertas no telemóvel quando uma videira precisa de água específica ou quando há risco de geada", conta João Silva, produtor há 30 anos. "Antes, isto exigia caminhar pelos campos diariamente. Agora, tomo decisões baseadas em dados, não em intuição."

A segurança destas redes é o seu trunfo mais valioso. Enquanto as redes públicas partilham infraestrutura entre milhares de utilizadores, as redes privadas são ilhas digitais isoladas. "É como ter um condomínio fechado versus viver numa rua movimentada", compara Maria Santos, especialista em cibersegurança. Os dados da produção nunca saem do perímetro da fábrica, protegendo segredos industriais que valem milhões. Esta característica está a atrair setores tradicionalmente reticentes à digitalização, como a defesa e a saúde.

No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, está em testes um sistema de cirurgia remota assistida por 5G. Um cirurgião pode orientar uma operação noutro hospital com um atraso de apenas 2 milissegundos – menos tempo do que leva a piscar um olho. "A latência é crítica quando se manipulam instrumentos dentro do corpo humano", explica o Dr. António Mendes. "Com 4G, seria impossível. Com 5G privado, abrimos a possibilidade de especialistas em Lisboa operarem doentes no interior do país."

Os desafios, contudo, são significativos. O custo de implementação ainda é proibitivo para muitas PMEs, variando entre 50.000 e 500.000 euros conforme a dimensão. A escassez de especialistas em redes 5G em Portugal obriga as empresas a contratar consultores estrangeiros. E há questões regulatórias por resolver: quem é responsável se uma rede privada interfere com comunicações públicas? A ANACOM está a trabalhar num quadro legal, mas a tecnologia avança mais rápido que a burocracia.

O mais intrigante é como esta tecnologia está a criar novos modelos de negócio. A MEO e a NOS já oferecem "5G como serviço" – as empresas pagam uma mensalidade em vez de investirem em infraestrutura própria. Startups portuguesas estão a desenvolver aplicações específicas: desde sistemas de realidade aumentada para formação de técnicos até plataformas de gestão logística que rastreiam cada palete em armazéns gigantes.

No porto de Sines, os contentores "conversam" entre si através de 5G, organizando-se automaticamente conforme o destino e prioridade. "Reduzimos o tempo de carga/descarga em 30%", revela um gestor portuário. "Mas o verdadeiro valor está nos dados: sabemos exatamente onde está cada contentor, a que temperatura está e se foi aberto indevidamente."

O que começou como um upgrade técnico está a tornar-se numa revolução operacional. As empresas não estão apenas a ficar mais rápidas – estão a repensar processos que existiam há décadas. O controlador de tráfego aéreo que monitoriza drones de entrega, o agricultor que rega videiras com precisão cirúrgica, o cirurgião que opera a 300 quilómetros de distância – todos partilham uma característica: já não dependem dos operadores de telecomunicações para a sua conectividade crítica.

Esta autonomia digital traz perguntas profundas sobre o futuro das telecomunicações. Se as grandes empresas criarem as suas próprias redes, o que acontece ao modelo de negócio dos operadores? Estaremos a caminhar para um mundo onde a conectividade é um utility como a eletricidade, gerida localmente conforme as necessidades? As respostas ainda estão a formar-se, mas uma coisa é clara: em Portugal, o 5G privado saiu dos laboratórios e está a moldar ativamente o futuro da indústria.

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