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Seguro automóvel: o que as seguradoras não contam sobre os novos riscos das estradas portuguesas

Nas estradas portuguesas, circulam hoje mais de seis milhões de veículos. Este número, por si só, já seria motivo para reflexão. Mas há algo mais subtil a acontecer, algo que as estatísticas oficiais de sinistralidade não captam na totalidade. Enquanto as seguradoras ajustam prémios e coberturas com base em dados históricos, uma nova realidade vai-se desenhando no asfalto, repleta de riscos que muitos condutores nem sequer imaginam.

Comecemos pelo óbvio: a eletrificação da frota automóvel. Em 2023, Portugal registou um aumento de 131% nas vendas de veículos elétricos face ao ano anterior. Este crescimento exponencial traz consigo um conjunto de desafios que vão muito além da autonomia das baterias. Um carro elétrico, em caso de acidente, pode representar um risco de incêndio diferente dos veículos a combustão. As baterias de iões de lítio, quando danificadas, podem entrar em combustão espontânea, um fenómeno conhecido como "fuga térmica". Muitas apólices de seguro ainda não discriminam claramente como cobrem estes incidentes específicos.

Mas o verdadeiro elefante na sala são os sistemas de assistência à condução. Desde o controlo de cruzeiro adaptativo aos sistemas de manutenção de faixa, estas tecnologias prometem maior segurança, mas criam uma zona cinzenta na responsabilidade. Quem é culpado quando um carro com piloto automático se envolve num acidente? O condutor, que confiou na tecnologia, ou o fabricante, que a desenvolveu? As seguradoras estão a criar cláusulas específicas para estes cenários, mas a maioria dos condutores desconhece completamente estas nuances nos seus contratos.

Há ainda um fator que raramente é discutido: a deterioração das infraestruturas rodoviárias. Portugal tem uma das redes viárias mais extensas da Europa, mas a sua manutenção não acompanhou o crescimento do parque automóvel. Estradas com pavimento degradado, sinalização desatualizada e pontos negros não sinalizados aumentam exponencialmente o risco de acidentes. Curiosamente, muitas seguradoras consideram estes fatores como "riscos normais da condução", recusando-se a cobrir danos resultantes de más condições da via pública.

O fenómeno das "zonas de baixas emissões" nas grandes cidades adiciona outra camada de complexidade. Lisboa e Porto já implementaram restrições à circulação de veículos mais poluentes, mas o que acontece quando um condutor, inadvertidamente, entra numa destas zonas e é multado? A maioria das apólices não cobre estas coimas, considerando-as infrações administrativas. No entanto, para o condutor comum, trata-se de um risco financeiro real e crescente.

E não podemos ignorar a transformação digital do setor. As seguradoras estão a implementar sistemas de telemetria que monitorizam os hábitos de condução através de aplicações móveis. Estes dispositivos recolhem dados sobre acelerações bruscas, travagens, velocidade média e até os horários de circulação. Em troca de descontos nos prémios, os condutores cedem uma quantidade impressionante de informação pessoal. O que muitos não sabem é que estes dados podem ser usados para justificar aumentos de prémio ou mesmo a recusa de renovação de apólices.

Outro aspeto pouco divulgado prende-se com a cobertura em viagens internacionais. Com a popularidade das road trips pela Europa, muitos portugueses assumem que a sua apólice os cobre em qualquer país da União Europeia. A realidade é mais complexa. Alguns países têm requisitos mínimos de cobertura superiores aos portugueses, e danos causados em territórios como a Suíça ou os Balcãs podem não estar totalmente cobertos pelas apólices standard.

Finalmente, há a questão dos veículos partilhados. As plataformas de carsharing estão a proliferar nas principais cidades portuguesas, mas a cobertura de seguros nestes serviços é um verdadeiro labirinto. Quem é responsável quando um veículo partilhado sofre danos? O último utilizador, a plataforma ou o proprietário do veículo? As apólices tradicionais raramente contemplam estes cenários, deixando os utilizadores numa situação de vulnerabilidade jurídica.

O mercado de seguros automóvel está numa encruzilhada histórica. Por um lado, a tecnologia promete veículos mais seguros e sistemas de prevenção mais eficazes. Por outro, cria novos riscos e zonas de incerteza que desafiam os modelos tradicionais de seguro. Para o condutor comum, a solução passa por uma coisa simples, mas frequentemente negligenciada: ler atentamente a letra pequena do contrato. Porque na estrada, como na vida, o diabo está sempre nos detalhes.

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