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Seguros em Portugal: o que os portugueses ainda não sabem sobre as novas regras do setor

Num país onde o seguro automóvel é obrigatório e onde quase metade das casas tem seguro multirriscos, poucos são os que realmente compreendem as mudanças silenciosas que estão a transformar o setor segurador. Enquanto os portugueses se preocupam com o aumento dos prémios, as seguradoras preparam-se para uma revolução digital que promete redefinir completamente a relação com os clientes.

A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) introduziu este ano novas regras de transparência que obrigam as empresas a explicarem, de forma clara e acessível, todas as exclusões dos contratos. Esta medida, que à primeira vista parece burocrática, esconde uma realidade preocupante: muitos portugueses descobrem apenas na hora do sinistro que o seu seguro não cobre situações que julgavam estar protegidas.

Os seguros de saúde estão a tornar-se num campo de batalha entre as seguradoras e os hospitais privados. Com os custos da saúde a subirem anualmente acima da inflação, as empresas seguradoras estão a criar redes mais restritas de prestadores, limitando a liberdade de escolha dos segurados. Esta estratégia, embora reduza os custos para as seguradoras, coloca os portugueses perante um dilema: pagar menos pelo prémio ou ter acesso a todos os médicos e hospitais.

No segmento automóvel, assistimos a uma mudança radical. As seguradoras estão a testar sistemas de telemetria que monitorizam a forma como conduzimos. Quem aceita instalar uma caixa preta no carro pode beneficiar de descontos significativos, mas paga um preço em privacidade. Esta tecnologia, importada do Reino Unido e dos Estados Unidos, levanta questões éticas sobre quem realmente possui os dados da nossa condução.

Os seguros de vida estão a sofrer a maior transformação da sua história. As seguradoras começam a utilizar algoritmos de inteligência artificial que analisam desde os nossos hábitos de compra online até à nossa atividade nas redes sociais para calcular o risco. Um simples like numa página sobre desportos radicais pode, teoricamente, aumentar o prémio do seguro de vida. Esta vigilância digital está a criar novos tipos de discriminação, ainda não regulados pela lei portuguesa.

As alterações climáticas estão a reescrever as regras dos seguros de habitação. As zonas costeiras e as áreas propensas a incêndios florestais estão a tornar-se progressivamente mais caras para segurar, quando não se tornam completamente inacessíveis. Esta realidade está a criar uma nova forma de desigualdade territorial, onde quem vive em zonas de risco vê o valor da sua propriedade desvalorizar não pelo mercado imobiliário, mas pela indisponibilidade de proteção seguradora.

O seguro de responsabilidade civil profissional está a tornar-se num campo minado para muitos trabalhadores independentes e pequenas empresas. Com a proliferação de processos judiciais, mesmo em situações onde não há negligência comprovada, os prémios dispararam. Muitos profissionais liberais enfrentam o dilema de pagar prémios que consomem uma parte significativa dos seus rendimentos ou arriscar-se a uma ação judicial que pode destruir financeiramente.

As insurtechs, as startups tecnológicas do setor segurador, prometem revolucionar o mercado com produtos personalizados e preços mais baixos. No entanto, a sua penetração em Portugal continua limitada, em parte devido à complexidade regulatória, mas também devido à desconfiança dos consumidores portugueses em relação a marcas desconhecidas. Esta hesitação pode estar a custar aos portugueses poupanças significativas.

Os seguros de viagem, que muitos consideram um luxo dispensável, escondem armadilhas que podem transformar férias em pesadelos. A maioria dos portugueses não sabe que muitos seguros de viagem excluem cobertura para atividades consideradas de risco moderado, como mergulho com snorkel ou caminhadas acima de certa altitude. Estas exclusões são frequentemente escritas em letra pequena que ninguém lê até ser tarde demais.

O futuro dos seguros em Portugal passa pela personalização extrema. Em breve, poderemos ter seguros que cobrem apenas os riscos específicos do nosso estilo de vida, pagando apenas pelo que realmente precisamos. Esta evolução, porém, traz consigo o risco de fragmentação social, onde os mais pobres terão acesso apenas a proteções básicas, enquanto os mais ricos poderão comprar coberturas quase completas.

A verdade é que os portugueses continuam a tratar os seguros como uma despesa obrigatória e chata, em vez de os verem como ferramentas de gestão de risco. Esta mentalidade precisa de mudar num mundo cada vez mais imprevisível, onde os riscos tradicionais se misturam com ameaças digitais, climáticas e pandémicas.

A próxima década será decisiva para o setor segurador português. Ou as empresas conseguem reinventar-se, tornando-se verdadeiros parceiros na gestão do risco dos portugueses, ou serão ultrapassadas por gigantes tecnológicos que veem nos seguros apenas mais um produto para vender. A escolha que fizerem determinará não apenas o futuro das seguradoras, mas a segurança financeira de milhões de portugueses.

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