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A revolução silenciosa da energia em Portugal: das barragens às baterias gigantes

Enquanto os olhos do país se voltam para as manchetes políticas e os escândalos financeiros, uma transformação profunda está a acontecer nas sombras do setor energético português. Não se trata apenas de painéis solares nos telhados ou parques eólicos nas serras. Esta é uma revolução que está a reescrever as regras do jogo, desde as barragens centenárias até às baterias do tamanho de campos de futebol que prometem resolver o eterno problema do armazenamento.

Nas profundezas do Douro Internacional, onde o rio serpenteia entre penhascos de granito, uma equipa de engenheiros está a realizar uma autópsia tecnológica numa barragem construída nos anos 50. O objetivo não é apenas prolongar a sua vida útil, mas transformá-la num sistema híbrido que combine hidroeletricidade com energia solar flutuante. "Estamos a ensinar velhos cães novos truques", confessa-nos um dos responsáveis, sob condição de anonimato. "As barragens deixaram de ser apenas produtoras de energia para se tornarem baterias naturais."

Enquanto isso, no Alentejo, o que parecia ser mais um campo de oliveiras revela-se um dos projetos mais ambiciosos da Europa: uma mega-bateria de iões de lítio capaz de armazenar energia suficiente para abastecer Lisboa durante várias horas. A tecnologia, desenvolvida por uma startup portuguesa que começou numa garagem de Coimbra, está a atrair investidores de Singapura e fundos soberanos do Médio Oriente. O segredo? Um eletrólito orgânico que reduz os custos em 40% e elimina o risco de incêndio que assombra as baterias convencionais.

Mas a verdadeira disrupção está a acontecer nos contratos. A Comissão Europeia autorizou recentemente um mecanismo inédito que permite aos consumidores industriais comprarem energia diretamente a produtores renováveis, saltando as tradicionais comercializadoras. O primeiro acordo deste género em Portugal envolve uma fábrica de cimento no Norte e um consórcio de parques eólicos no Centro. "É como comprar vinho diretamente ao produtor, em vez de passar pelo supermercado", explica uma fonte do setor. "O preço é 30% mais baixo e sabemos exatamente a origem da energia."

Nos bastidores, porém, persistem tensões que raramente chegam aos media. As redes de distribuição, algumas com mais de meio século, estão a atingir o limite da capacidade para absorver a produção renovável. Em dias particularmente ventosos ou soalheiros, os operadores são forçados a desligar parques eólicos e solares para evitar o colapso do sistema. "Temos um Ferrari, mas andamos com estradas de terra batida", queixa-se um técnico da REN que prefere não se identificar.

A solução pode estar debaixo dos nossos pés. A Galp e a EDP estão a explorar a conversão de antigos poços de petróleo offshore em sistemas de armazenamento de ar comprimido. A ideia é simples: nos períodos de excesso de produção renovável, usa-se a energia para comprimir ar nas cavernas submarinas; quando a produção cai, o ar é libertado para mover turbinas. A tecnologia existe desde os anos 70, mas só agora se tornou economicamente viável graças aos preços baixos das renováveis.

Nas cidades, a revolução assume formas mais subtis. Em Lisboa, um projeto piloto está a transformar os elevadores dos prédios históricos em mini-centrais de produção. Quando descem com carga, geram eletricidade que é injetada na rede do edifício. "Cada elevador pode produzir até 30% da energia que consome", revela o arquiteto por trás do projeto. "Multiplique isso pelos milhares de elevadores da cidade e temos uma central virtual."

O setor dos transportes não fica atrás. No Porto, uma frota de autocarros elétricos está a ser equipada com sistemas vehicle-to-grid (V2G) que permitem devolver energia à rede durante os períodos de pico. Os veículos carregam durante a noite, quando a eletricidade é mais barata, e durante o dia, enquanto aguardam nos terminais, alimentam as redes locais. "É como ter milhares de baterias móveis a circular pela cidade", entusiasma-se o responsável pela mobilidade da Área Metropolitana.

Mas nem tudo são rosas. A corrida ao lítio, essencial para as baterias, está a criar conflitos em Trás-os-Montes e na Beira Alta. As comunidades locais dividem-se entre o potencial de criação de emprego e o receio de danos ambientais irreversíveis. "Estamos a trocar a dependência do petróleo pela dependência do lítio", alerta um ativista ambiental. "E desta vez as minas estão no nosso quintal."

O maior desafio, contudo, pode ser humano. O setor energético tradicional emprega dezenas de milhares de pessoas em funções que vão desaparecer nos próximos anos. Técnicos de centrais a carvão, operadores de subestações manuais, leitores de contadores - todos enfrentam a necessidade de requalificação urgente. "Não podemos deixar ninguém para trás nesta transição", defende o secretário-geral de um sindicato do setor. "A revolução energética tem de ser justa ou não será."

Enquanto escrevo estas linhas, recebo uma mensagem cifrada de uma fonte no Ministério do Ambiente. O próximo leilão de hidrogénio verde, marcado para o final do ano, vai incluir uma novidade: licenças para produção offshore, no mar territorial português. A tecnologia, ainda experimental, usa turbinas eólicas flutuantes para produzir hidrogénio diretamente no local, eliminando a necessidade de cabos submarinos. Se funcionar, Portugal pode tornar-se o primeiro país do mundo com uma economia baseada em hidrogénio oceânico.

Esta é a nova fronteira energética portuguesa - não no espaço, mas nas profundezas do nosso mar e na inteligência dos nossos engenheiros. A revolução não será televisionada, mas sentir-se-á em cada conta da luz e em cada emprego criado. Resta saber se seremos espectadores ou protagonistas desta mudança histórica.

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